Nestes 16 anos que vivo em Erechim, o que dá cerca de 15% da idade do município, aprendi a me sentir em casa. Como sabemos, a casa da gente é um lugar especial. Cheguei aqui em fevereiro de 2010. A avenida Dom João Hoffmann, entre a URI e o Seminário Fátima (que abrigava a UFFS) estava sendo concluída, ela que foi inaugurada exatamente na data do aniversário da cidade daquele ano. Erechim estava completando 92 anos e eu 30. Não digo que foi amor à primeira vista, mas inegavelmente nasceu uma relação de respeito e reconhecimento mútuo. Foi em Erechim que assumi a condição de professor universitário, uma carreira que almejava durante minha formação em Porto Alegre. Contribuir na construção da UFFS Campus Erechim passou a ser algo fundante dos meus dias e noites na cidade. Há, portanto, um entrelaçamento entre a minha história pessoal e uma cidade que passava por um expressivo processo de desenvolvimento em vários setores.

ERECHIM QUE (VI)VI

108 anos de um bom lugar para morar

 

Nestes 16 anos que vivo em Erechim, o que dá cerca de 15% da idade do município, aprendi a me sentir em casa. Como sabemos, a casa da gente é um lugar especial. Cheguei aqui em fevereiro de 2010. A avenida Dom João Hoffmann, entre a URI e o Seminário Fátima (que abrigava a UFFS) estava sendo concluída, ela que foi inaugurada exatamente na data do aniversário da cidade daquele ano. Erechim estava completando 92 anos e eu 30. Não digo que foi amor à primeira vista, mas inegavelmente nasceu uma relação de respeito e reconhecimento mútuo.

Foi em Erechim que assumi a condição de professor universitário, uma carreira que almejava durante minha formação em Porto Alegre. Contribuir na construção da UFFS Campus Erechim passou a ser algo fundante dos meus dias e noites na cidade. Há, portanto, um entrelaçamento entre a minha história pessoal e uma cidade que passava por um expressivo processo de desenvolvimento em vários setores.

No ano de 2011, assumi a coordenação de um fórum de estudos na área de Educação Popular, evento anual e itinerante realizado em universidades do Rio Grande do Sul. Em 2012, o evento seria pela primeira vez realizado em Erechim na jovem UFFS. Um dia, fui convidado para falar sobre esse evento que realizamos em maio de 2012, reunindo mais de 300 pessoas no Seminário Fátima, Centro Cultural 25 de julho e nas escolas Érico Verissimo e Haidée Tedesco Reali. Mal sabia que daquela entrevista na Rádio Cultura surgiria a possibilidade de viver um espaço privilegiado de diálogo com a cidade, falando de futebol e de tudo que cerca a vida.

Anos depois, essa relação com a cidade se consolida com o alcance regional da 98 FM, o que reforça laços com as coisas da nossa gente. Se a UFFS me trouxe a Erechim, a rádio me enraizou na cidade e na região. Aqui, construí minha carreira na docência e na pesquisa em Educação, minha filha nasceu e vivo cotidianamente essa relação de respeito e de envolvimento com as coisas dessa parte do mundo.

Erechim cresceu e segue crescendo. Com área territorial de 429,164km², abriga 105.705 pessoas, segundo o Censo IBGE 2022. Temos uma densidade demográfica de 246,30hab/km² e uma escolarização de 99,71% das pessoas entre 6 e 14 anos. A projeção populacional do IBGE já sinaliza nossa população perto dos 110.000 habitantes neste ano.

Ao ser parte deste ciclo atual de expansão e diversificação de Erechim, entendo que nem só coisas positivas nos acompanham. E temos que saber fazer a crítica construtiva que só é possível de ser feita se a gente se importa de verdade. Por isso, olho para a nossa Erechim e vejo muitos elementos positivos. Meu olhar que vê é de quem aqui chegou e hoje acolhe outras pessoas que seguem chegando. Uma cidade com empregos, oportunidades educacionais e  hospitais sempre vai atrair muitas pessoas.

Contudo, é preciso mais. Como cantaram os Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Certamente, não são todas as pessoas que vivem em Erechim que têm uma vida digna, pois se sabe das carências de um segmento da população. Quem não percebe isso, talvez tenha que sair do pórtico do centro da cidade. Toda cidade que cresce tem as suas “dores” típicas do modelo capitalista que é competente para gerar riqueza e incompetente para distribuí-la.

Assim, aproveitando a véspera do início da 27ª Feira do Livro de Erechim, que será realizada de 1º a 10 de maio na praça Jayme Lago, destaco alguns pontos que podem ser melhorados na dimensão cultural de nossa cidade. Entre tantas questões, apresento três aspectos que merecem atenção:

1) Construção  de um auditório ou anfiteatro com capacidade para, pelo menos, 1.200 pessoas. Atualmente, o Centro Cultural 25 de julho não tem capacidade para 500 pessoas. Para o crescimento de espetáculos e eventos na cidade, é fundamental termos um espaço com mais estrutura. Também não temos grandes auditórios em universidades e empresas em Erechim. Precisamos entrar em circuitos de shows musicais e peças de teatro que alarguem nosso repertório.

2) Incremento do programa “Erechim, cidade que lê”, lançado na Feira do Livro de 2025. É muito importante que o poder público, as entidades e as pessoas da cena literária da cidade tenham um envolvimento maior com ações mais abrangentes. Estamos caminhando nesse sentido, mas ainda há um longo caminho que passa pela descentralização de atividades e por uma nova dinâmica de envolvimento com a cidade. O vale-livro da Feira, importante iniciativa, deve chegar também à Educação Infantil da rede pública, incentivando a leitura antes da alfabetização ao envolver as famílias.

3) Construir a ideia de cultura como um sistema vivo, ou seja, que não se prenda em estereótipos e que possa chegar aos bairros, à zona rural, aos sindicatos, associações e demais expressões da nossa comunidade. Isso ajuda na valorização da atividade artística e artesã, inclusive com potencial de geração de renda, indo ao encontro da noção de economia criativa.

Penso que há outras questões muito relevantes de se debater na cidade na área da educação e cultura, como é o caso da gestão democrática nas escolas municipais e o sistema apostilado. Na rede privada, é fundamental maior sensibilidade das mantenedoras para o compromisso social das escolas, diversificando seus currículos e sua atuação comunitária.

Outro aspecto é o fortalecimento de editais de apoio à cultura, como o FAACE (Fundo de Apoio às Artes e à Cultura de Erechim) e uma maior participação das empresas no fomento a atividades e culturais. Temos empresas com grande lucro em Erechim e que pouco ou nada investem em projetos culturais. Essa é uma visão retrógrada e que precisa ser superada.

Erechim cresceu muito em seus 108 anos. Uma terra fértil, palco da constantes migrações, se tornou uma referência em várias áreas. O momento indica a continuidade da diversificação econômica e, sobretudo, da cultural. Afinal, o título de “capital da amizade” não deveria ser apenas retórico. O campo pequeno está se tornando uma cidade grande. A minha casa. A nossa casa.

 

Thiago Ingrassia Pereira

(Professor da UFFS e colaborador da 98 FM Erechim  –   @thiago.ingrassia)