Empresa de Erechim (RS) revisa produção de 9 para 8 ônibus por dia no segundo semestre, citando juros altos e incertezas eleitorais como principais fatores para a retração do mercado interno; em contrapartida, investe em novos produtos e na qualificação de mão de obra, com destaque para a integração de mais de 500 imigrantes.
A direção da Comil Ônibus esteve no Estúdio 98 da 98 FM na manhã desta quinta-feira (16) para uma análise detalhada do cenário do setor e dos planos da empresa para o próximo semestre. O empresário Deoclécio Corradi, o diretor Carlo Corradi e a gerente de RH, Fernanda Parmeggiani, abordaram os desafios e as estratégias da Comil, uma das maiores fabricantes de ônibus rodoviários do Brasil .
Produção e Mercado
Carlo Corradi iniciou a conversa destacando um momento de “bastante cautela”, especialmente no mercado interno. Após três anos de forte demanda, a empresa sentiu uma queda significativa nas vendas a partir do final de 2024. “Nos preparamos no final do ano passado para um aumento de produção, saímos de 8 ônibus dia para 9. Mas, a partir do segundo semestre, teremos que dar um passo atrás e voltar a produzir somente 8 unidades”, afirmou Corradi.
O executivo atribuiu a retração à alta taxa de juros, que tem desestimulado os investimentos dos clientes, e ao período eleitoral, que gera receio para projetos de maior escala. A produção brasileira de ônibus, que já alcançou 35 mil unidades anuais em tempos de recorde, fechou 2025 com cerca de 23 mil e a projeção para 2026 é de um número ainda menor, entre 21 e 22 mil veículos. “Estamos longe do potencial que a gente teria como indústria”, lamentou.
Como resposta a este cenário, a Comil ajustou o cronograma de férias coletivas para adequar a produção e está focando em inovação para se manter competitiva. Deoclécio Corradi mencionou o lançamento de um novo ônibus de fretamento como exemplo de renovação constante. Além disso, revelou que planos de aumentar a produção do cobiçado modelo Double Decker (DD) para três unidades por dia tiveram que ser colocados “na gaveta” devido à demanda não se concretizar, direcionando os esforços para o segmento de fretamento.
Mão de Obra e Inclusão
Em contrapartida à cautela do mercado, Fernanda Parmeggiani trouxe um panorama positivo sobre a gestão de pessoas na empresa. Com Erechim em situação de “pleno emprego”, a Comil mantém seu quadro estável por meio de um forte investimento em qualificação interna. “Hoje fornecemos curso de pintura, solda, chapeador. Toda a nossa qualificação é praticamente realizada interna, com um centro de educação com 6 instrutores”, explicou.
Um dos pontos de destaque na entrevista foi o programa de contratação de imigrantes, iniciado em 2020 em parceria com a OIM (Agência da ONU para as Migrações) e o Exército Brasileiro. A iniciativa trouxe migrantes com suas famílias para Erechim, resultando hoje em mais de 500 colaboradores estrangeiros no quadro da empresa. “Foi nessa relação ganha a ganha que a gente fez dar muito certo. Muitos já com longa trajetória que começaram lá em 2020 e estão até hoje, já realizam funções até de liderança internamente”, celebrou Fernanda, destacando o valor da diversidade cultural para a inovação dentro da empresa.
Internacionalização e Concorrência
No cenário externo, a Comil mantém representantes em todos os países da América Latina, com Peru, Chile e Argentina como principais mercados compradores. Sobre a concorrência, especialmente a chinesa, Carlo Corradi observou que os produtos asiáticos vêm melhorando na região, o que fez o Brasil perder um pouco de mercado. Para se manter à frente, a diretoria realizou recentemente uma viagem à China para buscar novos fornecedores de peças e agilizar o desenvolvimento de novos produtos, um movimento estratégico que visa acelerar as negociações e reforçar a cadeia de suprimentos.
Por: Edson Machado – Jornalismo 98
