A nova fase do Desenrola 2.0, anunciada em 04 de maio de 2026, marca mais um movimento do governo para tentar conter o avanço do endividamento das famílias em meio a juros ainda elevados e ao encarecimento do crédito no país. A ampliação do limite de renda para até R$ 8.105,00 equivalente a oito salários mínimos insere um público mais amplo na política de renegociação, especialmente trabalhadores formais e assalariados da classe média que também acumulam dívidas em ritmo acelerado.
Nesta etapa, o programa foca em um critério central: o tempo de atraso da dívida, que passa a determinar os percentuais de desconto. O governo busca, com isso, calibrar o incentivo para que tanto bancos quanto consumidores encontrem um meio termo viável para a quitação dos débitos.
Poderão ser renegociadas dívidas contraídas até 31 de janeiro de 2026, desde que estejam em atraso entre 90 dias e 24 meses. A iniciativa abrange débitos de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal, além da possibilidade de inclusão do FIES, ampliando o alcance para perfis de endividamento distintos.
Os maiores descontos continuam concentrados justamente onde está o maior problema: o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial. Para quem está inadimplente entre 90 e 120 dias, os abatimentos começam em 40%. A depender da faixa de atraso, esse percentual pode subir significativamente, chegando ao teto de 90% para dívidas com mais de um ano de atraso. No crédito pessoal, os abatimentos variam de 30% a até 80%.
O esforço não é à toa: as taxas médias cobradas no país seguem em patamares difíceis de sustentar. O cheque especial ainda opera próximo de 137% ao ano, enquanto o cartão de crédito alcança 428% ao ano, números que mantêm o Brasil entre os líderes globais em juros ao consumidor.
Rotativo de cartão e cheque especial
91 a 120 dias: 40%
121 a 150 dias: 45%
151 a 180 dias: 50%
181 a 240 dias: 55%
241 a 300 dias: 70%
301 a 360 dias: 85%
1 a 2 anos: 90%
Crédito pessoal (CDC e parcelado)
91 a 120 dias: 30%
121 a 150 dias: 35%
151 a 180 dias: 40%
181 a 240 dias: 45%
241 a 300 dias: 60%
301 a 360 dias: 75%
1 a 2 anos: 80%
Em um movimento considerado ousado por parte do governo, a nova fase também permite que o trabalhador utilize até 20% do saldo do FGTS para amortizar a dívida. O uso, no entanto, depende de acordo entre banco credor e trabalhador, o que tende a gerar debates sobre impacto no fundo e na proteção financeira de longo prazo dos brasileiros.
Com o Desenrola 2.0, o governo tenta equilibrar estímulo econômico, redução da inadimplência e alívio financeiro imediato às famílias. O desafio, porém, permanece o mesmo: atacar as causas estruturais do endividamento e o custo elevado do crédito, fatores que vão além dos ciclos de renegociação.
Impacto central nos balanços das Instituições Financeiras
O Desenrola 2.0 força os bancos a concederem descontos agressivos em dívidas que, se cobradas no rotativo ou no cheque especial, renderiam margens extremamente altas. Isso afeta os balanços em três frentes:
- Perda de receita financeira
Renegociar dívidas com abatimentos de 40% a 90% reduz a recuperação esperada de operações já contabilizadas com juros elevados. Isso pressiona o resultado de intermediação financeira. - Reconhecimento contábil de perdas (provisões)
Parte dessas dívidas já está provisionada, mas os descontos podem exigir ajuste adicional de PDD, afetando o lucro líquido no trimestre de adesão. - Redução do estoque de crédito de alta rentabilidade
Rotativo e cheque especial são os produtos mais lucrativos do sistema. Ao convertê-los em dívidas com desconto e prazo, o banco perde margens futuras.
O programa alivia famílias e reduz inadimplência, mas pressiona o resultado financeiro dos bancos no curto prazo. Para o governo, o objetivo é equilibrar estímulo econômico e redução do endividamento. Para o sistema financeiro, exige revisão de modelos de risco, receita e precificação do crédito.
Por: Túlio Lichtenstein – Express SA
TL News – 98 FM Erechim
