Projeto de Mobilidade Urbana e Humana prevê redimensionamento de rótulas, corredores expressos e restrição de acesso à Praça da Bandeira em intervenção de 12 meses
A cidade de Erechim se prepara para passar por uma das maiores reestruturações viárias de sua história. Em entrevista exclusiva ao Estúdio 98 da Rádio 98 FM na manhã desta terça-feira (8), o Secretário Municipal de Planejamento, Jackson Arpini, apresentou os detalhes finais do Plano de Mobilidade Urbana e Humana, um projeto gestado ao longo de 12 meses de estudos técnicos, simulações de tráfego, audiências públicas e diálogo com mais de uma dezena de instituições.
O plano, que tem início previsto para janeiro de 2027 e duração estimada em 12 meses, promete reorganizar completamente o fluxo de veículos e pedestres na região central da cidade, com intervenções que vão desde o redimensionamento geométrico das principais rótulas até a criação de corredores expressos de mão única nos eixos norte-sul.
O diagnóstico: uma cidade polo com trânsito de metrópole
De acordo com Arpini, a necessidade de mudança não é arbitrária, mas sim uma resposta a dados concretos. Erechim possui atualmente 110.615 habitantes e uma frota de 95 mil veículos registrados — uma relação de aproximadamente 0,86 veículo por habitante, índice elevado para uma cidade de médio porte.
“Nós somos uma cidade polo do Alto Uruguai. É natural que muitas pessoas se desloquem até Erechim para buscar serviços de saúde, educação, segurança e comércio mais robusto. O número de veículos que circulam diariamente aqui é superior ao número de veículos registrados no município. Isso exige intervenções planejadas, não paliativas”, afirmou o secretário.
O crescimento desordenado do tráfego nos últimos anos, somado à falta de atualização viária no centro, transformou as quatro rótulas do entorno da Praça da Bandeira em gargalos críticos, especialmente nos horários de pico e no período letivo, devido à proximidade com escolas de grande porte como a São José e a José Bonifácio.
As intervenções: o que muda, onde e quando?
A primeira fase do projeto contempla as quatro rótulas centrais:
Rótula da Tiradentes
Rótula da XV de Novembro
Rótula da Pedro Pinto de Souza
Rótula da Presidente Vargas
Elas serão redimensionadas em tamanho e desenho, com redução de seu diâmetro e reconfiguração das faixas de rolamento. Mas a mudança mais significativa, segundo Arpini, é a restrição de acesso: as quatro vias diagonais que atualmente dão entrada à Praça da Bandeira se tornarão vias exclusivas de saída.
“Pela Tiradentes, Presidente Vargas, Pedro Pinto de Souza e XV de Novembro não acessarão mais a Praça da Bandeira. Esses veículos serão direcionados a corredores expressos de mão única”, explicou.
Paralelamente, o projeto prevê a criação de dois grandes eixos viários:
Corredor Norte/Sul (sentido bairro-centro): ruas Aratiba e Silveira Martins, em mão única, ligando o Mirante da Maurício Cardoso ao Estádio Colosso da Lagoa.
Corredor Sul/Norte (sentido centro-bairro): ruas Pedro Álvares Cabral e Valentin Zambonatto, também em mão única.
Essas vias funcionarão como “expressas”, com menos interferências semafóricas e fluxo contínuo, desviando o tráfego de passagem do quadrilátero central e devolvendo a Praça da Bandeira a uma vocação mais humanizada e menos veicular.
Complexidade técnica e envolvimento de cinco secretarias
O secretário fez questão de enfatizar que o projeto não é fruto de improviso ou de decisão pessoal.
“Não é uma ação determinada pelo secretário A, B ou C, nem no achismo. Foram feitas diversas simulações e estudos. Estamos praticamente há 12 meses trabalhando a matéria, levantando item a item pela sua complexidade.”
Arpini revelou que o plano é coordenado pela Secretaria de Planejamento, mas envolve diretamente cinco pastas municipais: Secretaria de Planejamento (coordenação), Secretaria de Gestão e Governança, Secretaria de Obras, Secretaria de Meio Ambiente e Secretaria da Administração (devido à complexidade jurídica e contratual)
Cada secretaria atua em uma frente específica: pavimentação, alteração semafórica, sinalização vertical e horizontal, iluminação pública, paisagismo, paradas de ônibus, transporte coletivo, transporte escolar, taxistas, freteiros, e até mesmo os pontos de georreferenciamento das câmeras do Projeto Sentinela, que precisarão ser reposicionados com o novo desenho viário. “Poucas pessoas têm essa informação: as nossas rótulas têm pontos de georreferenciamento que terão que ser alterados porque iremos redimensionar tudo”, alertou.
Processo participativo e validação institucional
Antes de chegar à fase de licitação, o projeto percorreu um longo caminho de validação. Foram realizadas:
Apresentações técnicas a instituições e entidades, Reuniões com o Ministério Público, Debates no CODER (Conselho de Desenvolvimento de Erechim), Consultas aos Conselhos de Trânsito, Audiência pública com ampla participação popular. Espaço de escuta pública mantido aberto por 20 dias para receber proposições da comunidade. “Abrimos um espaço de escuta pública para agregar valor e buscar proposições da comunidade, para que o projeto seja o mais assertivo possível”, destacou Arpini.
O projeto finalizado já foi encaminhado para a elaboração de editais de licitação, e a escolha da empresa responsável pelas obras ocorrerá nos próximos meses.
Cronograma e execução gradativa
A orientação do prefeito Paulo Alfredo Polis é que as obras comecem no período de férias de verão, entre janeiro e fevereiro de 2027, quando a movimentação de veículos e pedestres no centro é naturalmente menor.
A execução será gradativa e sequencial, começando pelas rótulas próximas às escolas São José e José Bonifácio, para minimizar impactos no transporte escolar e na rotina de famílias. “Cada rótula será um miniprojeto. Vamos avançar de forma sequencial, para que haja toda essa acomodação dos veículos e dos pedestres”, explicou o secretário.
O prazo total estimado para a conclusão de todas as etapas é de 12 meses, com reuniões semanais de monitoramento entre o prefeito, os secretários envolvidos e os vereadores para acompanhamento e ajustes.
Mobilidade Urbana e Humana: o conceito por trás das obras
Arpini também dedicou parte da entrevista para explicar o conceito que nomeia o plano:
“Quando falamos em Mobilidade Urbana Humana, falamos da interação das pessoas com o dinamismo das cidades. As cidades foram constituídas e implementadas para as pessoas, e estas se utilizam do sistema modal — veículos, transporte coletivo, aplicativos, motocicletas, bicicletas — para se deslocar do ponto A ao ponto B.”
A ideia, segundo ele, é devolver ao pedestre a centralidade do espaço público, especialmente na Praça da Bandeira, que hoje funciona como um grande anel viário. Com a restrição do tráfego de passagem, a praça poderá ser ressignificada como área de convivência, lazer e comércio local, sem perder sua função de articuladora do centro.
Repercussão e próximos passos
Embora as mudanças sejam profundas, o secretário demonstrou confiança na aceitação popular, principalmente porque o projeto foi amplamente discutido e validado. A expectativa é que, ao final dos 12 meses, Erechim tenha um trânsito mais fluido, seguro e organizado, com redução de congestionamentos, menor índice de acidentes e melhor qualidade de vida para quem vive e trabalha no centro.
“Findado todo esse processo de escuta, nós finalizamos o projeto. Ele está em fase de elaboração de editais. É um projeto validado, e é esse projeto validado que iremos colocar em prática nos próximos 12 meses”, concluiu Arpini.
A licitação para contratação da empresa executora deve ser lançada ainda no segundo semestre de 2026, e as obras começarão logo após o recesso de fim de ano, dando início a uma nova era na mobilidade urbana de Erechim.
Por: Edson Machado – Jornalismo 98
