Primeiro padre exorcista da Serra Gaúcha já tem fila de espera para atendimentos

Nomeado em 6 de julho como o primeiro sacerdote oficialmente designado para o Ministério do Exorcismo da Diocese de Caxias do Sul, o padre Daniel D’Agnoluzzo Zatti vem enfrentando elevada demanda por atendimentos, com formação de fila de espera na sede diocesana. Fiéis procuram orientação por acreditar que problemas cotidianos tenham origem sobrenatural; entre os relatos há casos de depressão profunda, alterações psicológicas e interpretações de ruídos domésticos como sinais de presença maligna. O sacerdote afirma que a maioria dos casos tem origem emocional ou de saúde mental, e não causas sobrenaturais.

Formado inicialmente em Engenharia Química, com passagens por pesquisas no Boston College e em Harvard, e doutorando em Teologia, Zatti diz que a alta demanda é impulsionada por conteúdos da TV e da internet que levam fiéis a buscar explicações sobrenaturais para problemas cotidianos. Segundo o sacerdote, a maioria dos casos apresenta origem emocional ou de saúde mental, não causas demoníacas. Antes que qualquer possibilidade de exorcismo seja considerada, os casos passam por um processo de investigação e acompanhamento. Para isso, o padre formou uma equipe composta por profissionais da área da saúde, incluindo psicólogos e psiquiatras.

Para garantir avaliação adequada, a diocese implantou um protocolo de triagem multidisciplinar: todos os casos passam por investigação e acompanhamento por equipe que inclui psicólogos e psiquiatras antes de qualquer intervenção religiosa. Segundo Zatti, apenas entre 5% e 10% dos atendimentos chegam à fase final do rito; em números inversos, cerca de 90% a 97% das demandas não se configuram como possessão.

O rito adotado segue o protocolo oficial do Vaticano de 1998, que atualizou as normas de 1614 e estabelece critérios para identificar eventual ação maligna — como aversão a símbolos sagrados, manifestações de força desproporcional ou revelação de fatos ocultos. O padre ressalta que o discernimento envolve análise ampla da vida do interessado e avaliação médica.

A nomeação de Zatti é considerada rara: estima‑se que cerca de dez sacerdotes exerçam oficialmente o ministério do exorcismo no Rio Grande do Sul. Registros históricos apontam episódios esporádicos na região, como um exorcismo no Santuário de Caravaggio, em Farroupilha, na década de 1940.

Relato de exorcismo na Serra Gaúcha

Na Serra Gaúcha, um dos únicos casos de exorcismo conhecido aconteceu na década de 1940, no Santuário de Caravaggio, em Farroupilha. Segundo o reitor do santuário, padre Ricardo Fontana, uma mulher teria sido considerada possessa e passou por um ritual conduzido pelo padre Teodoro Portolan, então reitor.

Egídio Viecelli, de 94 anos, é apontado como a última testemunha viva do episódio. Ele participou das rodas de oração organizadas pelo padre Teodoro para libertar a mulher e recorda que as preces teriam ocorrido durante dias.

O que acontece no exorcismo?

Quando o caso chega ao ritual, o procedimento também é bem diferente do imaginário criado pelo cinema. Na Igreja Católica, o exorcismo é realizado como uma oração litúrgica, seguindo um rito oficial aprovado pelo Vaticano.

O ritual dura aproximadamente 30 minutos e utiliza símbolos religiosos, como crucifixo e água benta. Também há testemunhas durante o procedimento. A identidade das pessoas atendidas e o local dos rituais são mantidos em sigilo. Entre os sinais que, segundo a tradição católica, podem levar à investigação de uma possível possessão estão relatos de falar idiomas desconhecidos, força física considerada incomum e aversão intensa a símbolos religiosos. Esses sinais, porém, não são analisados isoladamente.

A nomeação do padre é inédita na história recente da Diocese de Caxias do Sul. O último registro oficial de um exorcismo na região remonta a 1947, em Farroupilha. O trabalho do novo exorcista, portanto, começa longe das cenas de terror do cinema, na vida real, primeiro vem o acolhimento, depois a avaliação e, somente em casos considerados necessários pela Igreja, o ritual.

A Diocese de Caxias do Sul orienta que quem busca atendimento procure primeiro o pároco da comunidade; quando necessário, o caso é encaminhado ao ministério do exorcismo. A diocese disponibiliza contato direto pelo telefone (54) 9 9999‑5606 e pelo e‑mail [email protected].

Fonte: Solaris FM